O TDAH, O BLOG E O MURO DAS LAMENTAÇÕES
Num comentário por email que recebi antes de ontem, uma amiga virtual comentou que o blog se assemelhava a um muro das lamentações.
Confesso que minha primeira reação foi de irritação, depois percebi pelo teor completo do email de que não se tratava de uma crítica gratuita e sim de uma constatação, uma conclusão que ela chegou em função do teor da maioria dos posts.
E por que isso?
Esse blog é um retrato da minha vida, ou um retrato da minha alma, ele reflete exatamente pelo que eu estou passando, minhas conquistas e minhas derrotas, minhas alegrias e tristezas. Completo em novembro 52 anos, 50 dos quais sem nenhum tipo de tratamento do TDAH é normal que eu ainda sofra os efeitos da doença mesmo quase dois anos após iniciar meu tratamento. Mal comparando, fui fumante por 24 anos e há 14 anos abandonei o cigarro; ainda hoje levo a mão ao bolso da camisa pra pegar o maço de cigarros. O que imagino é que para meu cérebro o hábito do fumo ainda tem profundas raízes afinal, o tempo de fumante ainda é bastante superior ao de não fumante. Acredito que com o TDAH seja algo semelhante. Minha personalidade foi forjada com o TDAH acoplado a ela, meu cérebro está habituado a agir conforme as características do TDAH por isso é tão difícil vencê-lo. Por isso é tão necessário ao TDAH diagnosticado na idade adulta policiar-se, analisar se seus atos sãos seus ou frutos do TDAH. Por isso precisamos da Ritalina, do coaching, do apoio psicológico, do atendimento médico.
Apesar de estar me tratando há dois anos, praticamente, minha vida ainda sofre fortes consequências do 50 anos de reinado absoluto do TDAH.
Esse blog não é um espaço literário ou de ficção, esse blog é um desabafo, um grito, um grito que encontrou eco em milhares de acessos vindos de diversos países do mundo. Esse espaço gerou cerca de mil comentários de homens e mulheres que sofrem os efeitos do TDAH.
Do fundo do coração, eu gostaria que esse blog fosse uma sucessão de vitórias, conquistas e sucessos. Mas aí seria mentira, não teria credibilidade; nenhuma vida é feita só disso. Com ou sem TDAH.
A vida é luta, e a vida de um portador de TDAH é luta acrescida da doença. O TDAH se soma aos problemas normais de todas as vidas, é um problema a mais.
Ao escrever sobre o que enfrento, ganhando ou perdendo, ponho a nu as estratégias do TDAH, retrato não só a mim e os meus problemas, mas os problemas que milhões de pessoas enfrentam no Brasil e no mundo.
Confesso que cheguei a me preocupar se o blog não estaria ficando pesado ou pessimista demais; mas creio que não, o blog é realista. Às vezes um pouco amargo, noutras um tanto forte, mas a vida é assim, e reconstruí-la aos 50 anos dá um trabalho danado. Estou aprendendo a reconstruí-la, estou mudando hábitos arraigados há meio século, luto com um inimigo poderoso e sorrateiro. mas não luto sozinho. Tenho ao meu lado cada leitor desse blog, minha médica e minha coach ( tinha mais gente mas me deixou pelo meio do caminho) e tenho o próprio blog, meu muro das lamentações. Não, lamentações não, meu Muro das Emoções.
Ficou melhor, né!
Obs.: O melhor do blog são os comentários. Aprendo com eles, geram posts e me fazem avaliar e reavaliar aquilo que escrevo e meu tratamento. Não deixem de comentar, é muito importante.


Alexandre, boa noite.
ResponderExcluirMeu nome é Maria Juliana e tenho 2 anos e 6 meses de vida com diagnóstico e tratamento, clínico e medicamentoso, de TDAH. É exatamente assim que eu me sinto, com 2 anos e 6 meses de vida!
Fiz meu auto diagnóstico durante a gravidez da minha segunda filha. Mal ela completou 1 mês de vida e eu já estava saindo do consultório da psiquiatra com receitas e consulta com psicóloga marcada.
Meu primeiro grande choque foi não saber quem eu era.... O que realmente, efetivamente, era EU naquela bagunça da minha vida e o que era o TDAH?!?!
Até hoje eu me pergunto, mas agora tento usar isso ao meu favor, impondo um limite entre mim e a doença...
Hoje, às vésperas de completar 35 anos, agradeço à maturidade sofrida por tudo o que passei, o doce aprendizado conquistado... Deixei de ser espectadora do meu espetáculo para ser protagonista! Sou mãe, mulher, esposa, médica cirurgiã, com MBA em gestão em saúde prestes a ser concluído... Só falta eu conseguir entregar meu TCC...
P.S.: Depois disso fiz o diagnóstico do meu pai, que recomeçou a vida aos 61 anos de idade...
Abraços,
Maria Juliana.
Que história bonita, Maria Juliana!
ExcluirE que vitória! Um currículo desses com TDAH é realmente uma conquista e tanto.
Achei linda a sua afirmação de que tem 2 anos e seis meses de vida! Você é mais velha do que eu, que faço 2 anos em dezembro próximo. rsrsrs
Obrigado por sua participação e diga a seu pai que torço muito por ele também, eu sei o que é descobri o TDAH tão tardiamente.
Um abraço, com admiração
Alexandre
Muito obrigada pela acolhida, Alexandre. Nunca havia participado de uma "terapia" com outros "desatentos" antes... É como encontrar várias de mim...
ExcluirQuanto ao currículo, atribuo este feito muito ao fato de não ter plena consciência das minhas limitações... Apesar dos boicotes e torturas que me impunha e dos clichês, dos rótulos que me seguiam ao longo dos anos, nunca achei que fosse incapaz de realizar qualquer um desses sonhos. Todos foram conquistados com muito mais sofrimento do que possa dissertar... (Na verdade ainda vivo o amargo de não conseguir entregar meu TCC...) Mas eu nunca acreditei que não seria capaz, apenas sonhei mais alto que o pesadelo do TDAH...
Somos sonhadores, precisamos aprender a usar isso ao nosso favor!!! Temos que aceitar que temos "armas poderosíssimas" que a maioria dos "atentos" não tem!! Já sabemos o que temos de pior e o mundo ainda insiste em nos lembrar disso a toda hora! Temos diferenciais muito competitivos para o mundo atual, tenho certeza disso.
Um abraço,
Maria Juliana.
Oi Maria Juliana, obrigado pela sugestão de post. Já leu? Creio que gastamos o triplo da energia dos atentos para obtermos os mesmo resultados.
ExcluirQuanto ao encontrar várias de você, usei sua imagem no post, um jogo de espelhos.
Somos um!
Muito obrigado por sua participação, é muito importante para todos nós que construímos esse blog.
Abraços
Alexandre
Alexandre,
ExcluirDe eco em eco ressoamos em sinfonia... Um pouco de cada um de nós constrói informação, destrói preconceito... Vejo que alguns de nós só tem a este blog como "tratamento"! Espero sinceramente continuar frequentando este espaço... Conheço alguns homens com TDAH, mas nenhuma mulher... Fazia falta trocar com outras mães TDAH, por exemplo!!!
Desculpe-me mas não vi a foto com os espelhos, está no post "TDAH, UMA ARMA PODEROSÍSSIMA A NOSSO FAVOR"?
Abraços,
MariJu
Alexandre,
ExcluirCom certeza só o blog é pouquíssimo. Se com tratamento medicamentoso e terapêutico intensivo, suportado, as vezes parece pouco!!!
Falta informação ampla e irrestrita!! Só conseguiremos médicos, professores, terapeutas e educadores adequados às nossas necessidades através da informação, do conhecimento de que existimos e somos muitos!!
Muitos dependentes químicos os são por serem TDAHs sem diagnóstico e tratamento!!! E isso é apenas um dos pontos da questão!! Comparemos nossas vidas antes e depois??? Nós nascemos de novo quando descobrimos quem somos com a doença sob controle!!
Na verdade, não temos nem escolas preparadas, nem médicos preparados, nem um mundo inteiro preparado...
Abraço,
MariJu.
Boa noite, Alexandre!
ResponderExcluirO que posta nesse blog é o reflexo de cada portador de tdah que o segue.
Eu por exemplo me lamento muito. Desde que comecei o tratamento - e por algumas dificuldades tenho que para-lo as vezes - incorporei o tdah na minha vida. O responsabilizo sobre tudo..sobre todas minhas derrotas e etc. Posso dizer que lamentar sobre o transtorno para as pessoas, INFELIZMENTE, se tornou uma defesa e o pior, um hábito. Se estivesse me lamentando e ao mesmo tempo lutando também, seria melhor..mas não, ainda não consegui isso.
Bom, fazia um tempo que eu não comentava nenhum texto..De qualquer forma continuo sempre aqui.
Seu blog se tornou um tipo de porto seguro p/ mim, Alexandre..acredite nisso!
Obrigada mais uma vez!
Você realmente estava muito sumida! Fico um pouco órfão a cada vez que um de vocês some. Não faça mais isso, viu! rsrsrs
ExcluirSabe Isa, discordo de você quando diz que não luta; só de você estar aqui lendo nossos depoimentos, deixando os seus, você está aprendendo, está se armando para a sua batalha. Cada pessoa tem seu próprio ritmo, seu tempo e sua intensidade. Não se critique, isso só colabora para deixá-la mais desanimada.
Você não se entregou, minha amiga, e isso é importante demais. Não se desespere, respeite seu ritmo e siga sempre em direção ao seu objetivo de dominar nosso inimigo comum.
E obrigado pelo elogio, fico até encabulado.
Um abração
Alexandre
Olá, infelizmente a vida de um TDAH é assim. É confusa, é lamentável. Se não fosse assim, seria normal, aí quem precisaria vir até aqui ler?
ResponderExcluirSe o seu blog é um muro de lamentações, é porque a sua vida foi assim a maior parte dela, e porque será?
Ainda bem que você está aqui hoje, para nos ajudar a ver que não é só a nossa vida de TDAH que é uma vida de tormentas, mas quem tantas outras assim...
Fique firme colega, as lamentações existem, e você também existe para dividí-las conosco.
Assim, como existem as vitórias!
Abraços.
Vamos em frente, Vanessa!
ExcluirUma coisa interessante é como esse sentimento de não estar sozinho é importante no tratamento. Esse é um comentário unânime no blog. Dá um conforto, um certo alívio sabermos que, afinal de contas, não somos apenas uns cretinos preguiçosos sem solução, né mesmo?
Conto com cada um de vocês para dividirem esse fardo.
Um abraço
Alexandre
Eu me lamento tanto que às vezes me pego fantasiando com uma máquina para viajar no tempo. Fico me imaginando consertando todos os erros do passado, refazendo toda a minha vida. Alguém mais também tem essa mania de fantasiar com o impossível?
ResponderExcluirEu fico fantasiando isso tb.. É terrível! Mas já estou me acostumando...
Excluirhahahahaha
kkkkkkkkkkkkkkkkk
ExcluirNós somos uma máquina do tempo.
Nós somos peças teatrais, companhias cinematográficas. Sempre tomo banho antes de dormir, não importa a hora ou o quanto estou cansado. Essa é minha hora de devaneio, viajo sem limites e completamente fora da realidade. Nessas horas sou outra pessoa, num outro mundo.
Durmo com um bebê. kkkk
Abraços
Alexandre
Fala, meu amigo Peregrino!
ResponderExcluirBom vê-lo por aqui.
Sim, concordo com você, temos de buscar estratégias de sobrevivência.
Pode contar comigo para o que for preciso.
Um abraço
Alexandre
Oi Ana, valeu você por suas palavras.
ResponderExcluirObrigado mesmo.
Vocês não imaginam a importância de cada comentário em minha vida, no meu tratamento.
lamentar não é exatamente o problema, o problema é ficar sentado à beira do caminho se lamentando, né mesmo?
Vamos caminhando, lado a lado é mais fácil e mais leve.
Um abraço
Alexandre
Se o seu é um muro... talvez eu seja a muralha da CHina....kkkkkkkkk . Mas não acho que vc se lamenta muito , pelo contrário, principalmente pelos seus post e o que seus seguidores escreveram acima , vc já deve ter ajudado muita gente , inclusive a Alice aqui. Geralmente eu escrevo qdo algo me intriga ou me chateia , talvez o teor um pouco depressivo. Muitas vezes escrevemos no Blog o que não dizemos por ai , a qq pessoa. Tb acredito que s Blogs são parte da terapia , seja ativa ou passivamente. Adooooooooro seus posts e seus comentários. Enfim , Alexandre , parabéns pelo seu Blog , que é mais concreto que um muro e ao mesmo tempo intangível como uma bela obra literária mas real como a vida. Abçs. Alice,
ResponderExcluirPuxaaaaa!!!!!!!! Que elogio lindo!
ExcluirPosso reproduzi-lo?
Pois eu adoro seu blog, gosto muito da forma como você aborda o TDAH, e principalmente a analogia com a Alice. Aproveitando a oportunidade, onde você tirou a palavra jaguadartes? Achei muito legal.
Mais uma vez, muito obrigado pela força.
Um abraço
Alexandre
Concordo Reily. Até por que, se ficarmos falando demais acabaremos sendo estigmatizados.
ResponderExcluirAdorei o 'desatentos anônimos'. Mas é mais ou menos assim que eu sinto esse espaço. Um espaço democraticamente TDAH. Aqui nos entendemos, respeitamos e nos aceitamos.
Valeu a força!
Um abraço
Alexandre
Oi Jucelino! Obrigado pelos elogios.
ResponderExcluirEm primeiro lugar, amo esse blog. Esse espaço é uma parte do meu tratamento, uma espécie de terapia. É lógico que existem dias em que estou meio desanimado, sem vontade. Já passei mais de dez dias sem escrever. Mas de maneira geral escrevo no mínimo um post por semana. Observo minha vida pra tirar idéias, os comentários são ótimas fontes também. Enfim, pra mim o blog é um enorme prazer.
Cara, achei interessante esse tema de seu blog. O que mais precisamos são ferramentas nos ajude a não perdermos o foco ou abandonar os projetos.
achei bem legal e creio que inédito. Nunca ouvi falar de nada parecido.
Imagino que você pode usar o seu dia a dia (assim como uso o meu) como fonte de inspiração.
Exemplo você desenvolve um determinado projeto pra um cliente e lá pelo meio vem um estalo: isso pode ser uma ferramenta legal para o TDAH.
Assim você não se cansa dele.
Comece devagar, sem muita divulgação e sinta se vai gostar, se você abandoná-lo, nós vamos entender, somos todos iguais. rsrs
Um abraço e obrigado pela participação
Alexandre
Eu leio teu blog todos os dias, ele me ajuda a clarear as idéias, e a entender o TDAH sob a ótica realista, prática. Ainda sem o diagnóstico, e sem a ritalina, mas me identifico em quase tudo. Tem me ajudado muito estar por aqui. Preciso de muito para me sentir melhor no profissional, no pessoal, no amoroso, e inclusive mais apta a lidar com o meu filho de 7 anos, diagnosticado portador. Ele está tendo muitos problemas na escola, inclusive nunca faz atividades de classe e agora se nega a fazer as provas mensais. A professora diz que ele é inteligente e criativo, mas tem muita dificuldade com ele. Enfim... a gente fica muito insatisfeito na quase totalidade das coisas, acreditando que o problema está na gente quando é o TDAH que sabota tudo, e nos dá essa impressão de dissabor e imobilidade. Inclusive no primeiro comentário que fiz aqui você me aconselhou a escrever um blog, juro penso nisso todos os dias, mas quero ter o diagnóstico, um marco, um divisor de águas. Quem sabe amanhã eu vá ao neuro...
ResponderExcluirVocê grato pelos comentários e eu grata pelos seus posts.
Um Abração Alexandre
Oi Layse!
ExcluirMuito difícil, né?
Seu filho se trata? Conviver com um TDAH não é fácil, atualmente EU não estou me aguentando. Essa insatisfação permanente é uma tortura.
Não adie mais, Layse, nossa vida passa tão depressa...
Cuide-se, você tratada será uma mãe melhor, mais atenta e menos insatisfeita. Pense nisso.
Quanto ao blog, faça um privado, só pra vc desabafar é ótimo.
Um abraço
Alexandre
Não é mole ter TDHA, mas pior ainda é conviver com um portador desta doença. Comecei meu tratamento a poucos dias, desta forma me considero um RN. Os primeiros dias com a Ritalina foram muito bons, falei varias vezes para minha esposa que eu não sabia como tinha conseguido suportar tanto tempo sem tratamento.
ResponderExcluirEsta semana não está muito legal, a insônia provocada pelo medicamento está consumindo meu sono.
De qualquer forma, sei que isto vai passar e que os benefícios que estou conquistando e que ainda conquistarei são muito maiores do que este período de adaptação com o medicamento.
Conviver com este transtorno não é fácil, dividir uma vida com alguém que tem TDAH é muito pior, é preciso amar muito para superar as tormentas de um relacionamento cheio de altos e baixos, principalmente para aqueles que não fazem tratamento.
Sei que tudo vai ficar ainda melhor, que se consegui conquistar algo sem tratar da doença, muitas outras alcançarei depois de seguir meu tratamento.
Bom dia, Amigo!
ResponderExcluirEm primeiro lugar desculpe a demora em respondê-lo, mas estou em luta com a Oi que até hoje 21 dias depois de um defeito ainda me deixa sem internet em casa.
Na verdade o que vc narra é um TDAH típico. Eu também me considero um cara inteligente e tenho uma vida muito inferior ao meu potencial intelectual. Esses abandonos dos projetos, variações de humor, insatisfação, sonhos delirantes, tudo faz parte do pacote TDAH.
Bem vindo ao mundo!
Converse com seus pais e tente convencê-los a procurar um neurologista (se você for independente faça hoje ainda). Procure no site da ABDA um médico que acredite em TDAH e trate-se. Você não imagina a mudança que o tratamento faz em nossas vidas.
Não desanime, conscientize-se e vá a luta, sua vida é o que vc tem de mais importante.
Um abraço e Feliz Natal
Alexandre